“Se eu fosse o Adão...”

Que o tempo é relativo, todos sabem. Afinal, é comum para nós observar que horas podem demorar dias inteiros para passar quando estamos numa situação desagradável, bem como dias que passam em alguns minutos quando estamos nos divertindo.

 

O ponto culminante nessa sensação distorcida de tempo é a ilusão pregada por nosso cérebro. Isso mesmo, o órgão mais desenvolvido que nos diferencia dos animais é que apronta essas peripécias em nosso cotidiano.

O exemplo clássico é o paradoxo existente entre uma segunda e uma sexta-feira. Teoricamente, nos dois dias temos a mesma quantidade de horas. Na segunda, para quem faz parte da classe dos assalariados, o ponteiro parece se rastejar pelo relógio, tudo demora, dá errado, incomoda e a única recompensa ao fim do dia é saber que a segundona (Entendeu o trocadilho? Segundona, Corinthians...Entendeu, entendeu? Ta parei) já passou.

 

Já no caso de uma sexta-feira, os valores se invertem. Tudo é lindo, todo contratempo vira motivo de piada, seu chefe está mais bem-humorado do que nunca e no fim do dia você é recompensado com um happy-hour regado por aquelas substâncias que conhecemos bem e adoramos, diga-se de passagem. É ai que entramos na pauta predileta do nosso blog: A influência do álcool na distorção do tempo.

 

Que atire a primeira garrafa aquele bêbado que, após acordar no sábado com uma ressaca desgraçada, jurou ao mundo a abstinência e na sexta-feira seguinte estava no mesmo bar, pedindo os mesmos drinks daquela fatídica semana passada.

 

É “batata” dizer que o álcool, quando entra em contato com nosso sistema nervoso, altera nossa percepção de tempo e espaço. Os minutos de felicidade, euforia e relaxamento proporcionados fazem com que cada bêbado sinta o tempo passar de maneira peculiar. As ações, cada vez mais espontâneas, são realizadas com o instinto ao invés do comodismo, dando uma pitada de aventura a toda essa maluquice que abastece a sua incansável mente careta acostumada com o horário comercial.


Pode admitir, quando você está bêbado você é mais feliz, pega mais mulher (ou mais homens, no caso da mulherada), fica mais engraçado - outros ficam mais emotivos-, para os que têm insônia, a bebida também ajuda a dormir depois de um tempo, você gasta aquele dinheiro que estava guardando para alguma emergência que nunca iria surgir, enfim...

 

É inevitável enxergar que tudo isso acontece quando você está sob o efeito de algo que só o homem teria a capacidade de inventar. Nem Deus, no auge do sétimo dia, pensou em criar um litro de cana para dar a Adão empurrar a janta de Eva, da cobra maldita, dos animais... Se ele estivesse mamado até o talo, com certeza nem a maça escaparia dessa aventura épica.

Acho que vou escrever um livro, já tem até nome: “Se eu fosse o Adão...”

 

É melhor parar por aqui, tira esse litro de vodca do meu lado se não vou escrever até sobre Napoleão e as “cocotinhas” que ele deveria ter plantado o nervo quando ainda era viril.

 

Barbaridades e boca suja é só aqui, no Drunk Memories. Todas as terças e quintas.

 



Escrito por Renê e Fernando às 09h41
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A idade do prazer

Ele nasceu forte e saudável, pesava menos de um quilo, mas já dava sinais que logo, logo seria igual a seu pai, um legítimo Whiskie 21 anos da melhor safra. Mamãe, um leve licor de cacau e passas era coruja e paparicava a garrafinha dia e noite, coisa que seu pai sempre repudiou, exigindo dureza, durabilidade e validade além da matéria. Já ele, um pequeno e barato litro de whiskie, ainda está crescendo e se espelha no pai, que é um lord e o dono da prateleira.

 

Os anos passaram, a vida de criança parece não ter fim, seu aroma suave e tonalidade clara já não abastecem mais a vontade de virar um adolescente, ou seja, um Whiskiezinho 12 anos de muita força e que promete ser o sucessor da família. Sua mãe, orgulhosa de ver seu único rótulo crescendo, agradece aos deuses distribuidores de bebida por ele ter nascido com saúde, graças a essa qualidade o garoto ainda está perto deles, na mesma prateleira.

Porém, a vida de um adolescente é, em todos os casos, hiper-ativa, o que dificulta a ação dos pais em observar os passos do herdeiro. Na vida, há sempre aqueles momentos em que você tem que mostrar para seus progenitores que você já não é mais aquele garotinho bobinho, que abaixa a cabeça sempre que houve uma bronca por alguma burrada que tinha feito. E foi o que ele fez, a tática de deixar o vidro entreaberto deu certo e aguçou a vontade daquele humano sapeca em experimentar novas iguarias enquanto seus pais viajavam. Da primeira vez, tudo bem, a mãe aceitou, entendeu a situação e apenas observou seu filho chegar altas horas em casa. Quando as saídas viraram rotina, ela se preocupou, viu que estava criando um vândalo que adorava sair com aquelas pessoas de pernas e braços.


Nas badaladas noites da cidade, o whiskiezinho era a sensação da rapaziada. Todo mundo queria dar uma bicada naquele líquido tão honroso. O moderador de goles do pequeno whiskie já não agüentava mais a sede famigerada das pessoas. Sua essência foi se espalhando por bocas alheias e nada restava fazer. A única saída para se manter vivo, ativo, era usar entorpecentes, o que manteria várias bocas de curiosos bem longe. Todos sabem o perigo dessas substâncias, menos a pequena garrafa, que pouco a pouco foi viciando e necessitando cada vez mais das drogas para se ver whiskie, coisa que não era mais há muito tempo. Seu destino foi selado na sua última balada, o restinho que lhe restava de sabedoria foi engolido por um gordinho que estava mais pra lá do que pra cá. Lá se foi o brilho do whiskie. Agora, ele não é nada além de uma simples garrafa.

Para sua sorte, o humano o guardou na prateleira e encheu de refrigerante de guaraná, numa tentativa desesperada de enganar seus pais. Pior para o whiskiezinho, que não teve outra escolha e foi obrigado a se mostrar naquela tonalidade para seus papais.

Quando ele chegou à prateleira, o pior aconteceu...

 

“Não há escolha, você sai para a gandaia com os humanos e volta ainda mais vazio e com marcas por todo o corpo de vidro, não se lembra que é frágil, seu rótulo está perdendo cor e vida, além de estar todo abarrotado”, disse o pai furioso. “Com certeza ele está usando drogas”. A decepção é evidente, enquanto sua mãe chora cacau, seu pai, duro e correto como sempre foi, estava lá, olhando para ele de cima a baixo, sua tampa lustrosa e rótulo imponente fizeram o refrigerante do whiskiezinho gelar. Seu pai não via escolha, a família não carregaria essa marca negra para sempre.

Um leve empurrão e o estilhaço no chão os fizeram, os humanos, acordarem de madrugada. O adolescente chorava ao ver seu troféu predileto esparramado no chão, totalmente destroçado e escorregando seu líquido até o canto da sala. Lá de cima da prateleira, seu pai apenas olhava, imóvel, a cria que acabara de matar.

 

Haja droga para escrever uma coisa dessas. Deus nos livre!

Drunk Fábulas para crianças não dormirem a noite Memories, todas as terças e quintas.



Escrito por Renê e Fernando às 16h37
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